A infância de muitos refugiados afegãos é marcada por anos de traumas e privações
A mesma fé que sustentou Setareh em meio à perseguição agora a motiva a servir crianças refugiadas afegãs e suas famílias
Cinco anos após a retomada do poder pelo Talibã no Afeganistão, milhares de famílias continuam lidando com as consequências do deslocamento forçado, da insegurança e da perda de direitos básicos.
Entre elas, estão refugiados afegãos que buscaram proteção em países vizinhos e agora tentam reconstruir a vida enquanto carregam as marcas emocionais da violência e da instabilidade.
Nesse cenário, Setareh (pseudônimo), uma cristã que precisou fugir do Afeganistão, dedica sua vida ao cuidado de crianças refugiadas afegãs afetadas pelo trauma. A história da própria Setareh é marcada pela perseguição por causa da fé, mas também pela certeza de que o amor de Cristo pode transformar realidades.
A escolha que mudou a história de Setareh no Afeganistão
Setareh cresceu em uma família muçulmana no Afeganistão. Ainda na infância, seus pais decidiram seguir a Jesus após ouvirem o evangelho. Essa escolha mudou completamente a vida da família e trouxe forte rejeição da comunidade.
“Nossos vizinhos diziam às pessoas para não comerem alimentos feitos por nós porque eram considerados pecado, ‘haram’.”
Setareh
Ela conta que muitas famílias deixaram de frequentar sua casa e algumas pessoas passaram a evitar qualquer contato com seus pais. A conversão ao cristianismo os transformou em estrangeiros dentro da própria comunidade.

Apesar disso, o testemunho da família produziu frutos inesperados.
“Os vizinhos perceberam que não éramos diferentes deles. Então as visitas aumentaram e até alguns deles passaram a crer em Jesus Cristo.”
Setareh
Como é ser cristão de origem muçulmana no contexto afegão?
Para muitos cristãos afegãos, especialmente os que vieram de contextos islâmicos ultraconservadores, a pressão vem tanto da sociedade quanto dos próprios círculos familiares. Setareh experimentou essa realidade durante os anos de escola.
“Quando meus colegas descobriram que eu era cristã, começaram a dizer que não deveriam falar comigo porque eu havia me convertido ao cristianismo.”
Setareh
Mesmo enfrentando o isolamento, ela decidiu responder à rejeição com amizade e respeito. Essas experiências fortaleceram sua fé desde cedo.
“Deus estava tocando o coração deles, e consegui compartilhar o evangelho com dois ou três colegas.”
Setareh
Como surgiu o trabalho com refugiados afegãos?
Depois de concluir os estudos, Setareh sentiu que Deus tinha um propósito maior para sua vida. Durante quase um ano, ela orou pedindo direção:
“Mostra-me o caminho, porque eu não quero desperdiçar meus dias.”
A resposta veio quando amigos envolvidos no atendimento a refugiados afegãos a convidaram para servir ao lado deles. Ao visitar famílias refugiadas, ela se deparou com uma realidade dolorosa.
“Elas estavam mais preocupadas com seus filhos do que consigo mesmas.”
Setareh
Mães compartilhavam histórias de pobreza, medo e deslocamento. Muitas haviam fugido das consequências do extremismo, da falta de oportunidades para as meninas e de situações de violência que deixaram marcas emocionais profundas em toda a família.
Como crianças refugiadas afegãs lidam com o trauma?

A resposta encontrada pelos parceiros locais foi criar um ambiente seguro onde crianças refugiadas afegãs pudessem aprender, brincar e recuperar a confiança.
O espaço oferece:
- alfabetização;
- aulas de idioma;
- atividades artísticas;
- artesanato;
- culinária;
- e momentos de convivência.
Mais do que isso, proporciona acolhimento.
Segundo Setareh, muitas crianças chegavam sem conseguir interagir. O processo de cura aconteceu gradualmente:
“Quando as convidávamos, elas estavam muito assustadas. Nós as abraçávamos, mas elas tinham medo.
Com o tempo, à medida que demonstrávamos amor, elas começaram a vir para os nossos braços sem medo.”
Hoje, muitas dessas crianças aguardam ansiosamente pelos encontros. “Agora elas estão muito abertas aos relacionamentos”, relata a cristã afegã.
Por que atividades simples ajudam na recuperação emocional?
Desenhar, pintar e brincar podem parecer atividades comuns, mas, para muitas crianças refugiadas, representam um caminho para expressar emoções difíceis de verbalizar.

Setareh percebeu que várias delas preferiam ficar em silêncio com papel e lápis de cor. Por meio da arte, os pequenos começaram a externalizar experiências traumáticas e reconstruir o senso de segurança.
“Nós não as pressionamos. Queremos que elas se sintam livres ali.”
Setareh
O poder do amor na vida de crianças afegãs refugiadas
Um episódio continua emocionando a equipe até hoje. Depois de descobrirem a data de nascimento de uma menina, decidiram fazer um bolo e celebrar seu aniversário. No entanto, ao invés de sorrir, ela começou a chorar.
“Esta é a primeira vez que estão comemorando meu aniversário.”
Criança afegã acolhida por Setareh
Para muitas crianças refugiadas, gestos simples comunicam algo que faltou durante anos: elas são vistas, valorizadas e amadas.
“As mães ligam perguntando: ‘Nossas crianças estão esperando por vocês. Onde vocês estão?’”
Setareh
Para Setareh, tudo isso confirma aquilo que Deus lhe ensinou ao longo da vida: o amor tem poder de restaurar pessoas e devolver esperança mesmo nas circunstâncias mais difíceis.
Como orar por cristãos perseguidos afegãos?
- Ore por Setareh e pelos cristãos que servem refugiados afegãos, para que tenham sabedoria, proteção e forças para continuar esse ministério.
- Interceda pelas crianças refugiadas afegãs, para que encontrem cura emocional, segurança e esperança para o futuro.
- Clame pelas mães afegãs, para que tenham oportunidades de sustentar suas famílias e cuidar dos filhos com dignidade.
- Ore para que Deus transforme o coração daqueles que promovem a perseguição e que mais pessoas conheçam o amor e a paz de Cristo.
Perguntas frequentes
Onde vivem refugiados afegãos atualmente?
Grande parte dos refugiados afegãos buscou proteção em países vizinhos da Ásia Central, onde continuam enfrentando desafios relacionados à documentação, ao sustento e à adaptação.
Como as crianças refugiadas são afetadas pelo deslocamento?
Muitas apresentam sinais de trauma, medo, ansiedade e dificuldades de socialização após viverem experiências de violência, perda ou deslocamento forçado.
Como posso ajudar cristãos afegãos?
Você pode orar, apoiar projetos de apoio a cristãos perseguidos ou encorajar sua igreja e amigos a entenderem a realidade do Afeganistão e de outros países da Lista Mundial da Perseguição 2026 no site da Portas Abertas.
