Após golpe militar e terremoto, entenda como famílias cristãs afetadas têm permanecido.
Abigail começou a empreender e a ensinar outras mulheres para auxiliarem na renda de suas famílias
Desde 2021, cristãos em Mianmar permanecem encurralados no conflito entre a Junta Militar e os grupos rebeldes ou insurgentes, devido ao golpe militar que assolou o país.
A perseguição, que já era uma realidade, se tornou ainda mais intensa, pois os militares acreditam que os cristãos são apoiadores dos grupos rebeldes. Com esse pretexto, muitas igrejas foram alvos de bombardeios.
A economia foi abalada e os preços aumentaram exponencialmente. Adquirir mercadorias básicas como alimento, combustível e as demais necessidades básicas se tornou um verdadeiro desafio.
Em 2025, um terremoto de magnitude 7,7 a 7,9 atingiu a segunda maior cidade do país, Sagaing. A população de Mianmar foi ainda mais abalada. O medo se espalhou por toda parte, mas alguns cristãos decidiram recomeçar e ajudar outros nesse processo.
Ser cristã em Mianmar apesar da adversidade
Abigail (pseudônimo) é esposa de um pastor em Mianmar. Desde cedo, viver sua fé não foi simples.
“Perdi meu pai quando era muito jovem. Foi um período muito difícil, mas minha fé me ajudou a superar.
Em Mianmar, ser cristão pode trazer muita discriminação. Na infância, meus colegas e as pessoas da comunidade não queriam ser meus amigos.”
Ela conta que sua fé também a privou de diversas oportunidades na escola e na comunidade.
“As escolas ofereciam vários cursos profissionalizantes para os alunos. Eu tinha muito interesse em participar, mas meu nome nunca aparecia entre os selecionados para os programas de capacitação.”
As dificuldades não pararam por aí. Abigail relata que também foi impedida de acessar serviços públicos de saúde e assistência social simplesmente por ser cristã.
“Nunca éramos informados sobre campanhas de vacinação ou programas de assistência social. Quando tentávamos entender o motivo, as autoridades sempre encontravam alguma desculpa.”
Com o passar do tempo, a hostilidade e a discriminação se intensificaram.
“As pessoas da comunidade jogavam lixo regularmente perto da nossa casa porque éramos cristãos.
Eles colocavam música em volume alto ou faziam barulho durante nossos momentos de culto. Chegavam até a atirar pedras em nossa casa quando nos reuníamos para adorar. Era assustador.”
Ela evitava conflitos, mas a situação não melhorava. Ao olhar para trás, Abigail acredita que o objetivo era intimidar sua família e forçá-la a deixar a região.
“Nunca desistimos. Continuamos orando: ‘Eles não conhecem a ti, Senhor, nem a tua salvação. Ajuda-os a compreender’. Orávamos e demonstrávamos o amor de Deus por meio da bondade. Como resultado, muitas famílias se voltaram para Cristo. Porém, todos que abandonaram suas antigas práticas pagaram um alto preço, enfrentando rejeição e boicote por parte de suas comunidades.”
O terremoto abalou a fé de muitos
Abigail relembra o dia do terremoto.
“Naquele dia, meu marido e meu filho tinham saído para resolver algumas questões, enquanto minha filha permaneceu em casa. Eu havia acabado de participar de uma reunião de oração e estava voltando para casa.
Quando o terremoto começou, o carro em que eu estava perdeu a estabilidade. Também vimos grandes rochas despencarem a poucos metros de nós. Foi extremamente assustador, mas, felizmente, saímos ilesos.”
Ao chegar em casa, encontrou a filha sentada no chão, abalada, mas sem ferimentos. No entanto, a cena dentro de casa era devastadora.
“Algum tempo depois, meu marido e meu filho também voltaram em segurança.
Tudo estava espalhado pelo chão. As paredes e o telhado foram danificados, e algumas colunas haviam desabado. Havia caos por toda parte. Vimos prédios da nossa região desmoronarem, enquanto ambulâncias levavam os feridos aos hospitais.”
Segundo Abigail, essa situação se prolongou por vários dias.
“Vivemos nas ruas por alguns dias, mas depois voltamos para nossa casa danificada. Oramos por segurança, pois a casa apresentava muitas rachaduras. Estávamos desanimados, mas lembrávamos a nós mesmos de que ainda éramos abençoados por estarmos vivos e ilesos, apesar do terremoto.”
A ajuda de parceiros locais da Portas Abertas
Abigail destaca que a ajuda chegou no momento certo. Ela lembra que muitas pessoas também sofreram graves consequências emocionais e psicológicas após o desastre.
“Somos muito gratos porque nos trouxeram ajuda quando mais precisávamos. Todo arroz e outros suprimentos que vocês ofereceram foram essenciais.
Os cuidados pós-trauma oferecidos aos adultos, jovens e crianças foram inestimáveis. Graças a eles, os membros da minha igreja conseguiram superar rapidamente a insegurança e os traumas.”
O terremoto também revelou um importante testemunho de solidariedade.
“Cristãos de regiões que não foram afetadas perceberam que podiam compartilhar o que tinham e ajudar. Eles providenciaram alimentos e outros itens essenciais para as famílias atingidas, que por sua vez também repartiram esses recursos com seus vizinhos não cristãos.”
Apesar disso, alguns impactos de longo prazo continuam evidentes.
“Sinto que o terremoto abalou mais do que casas e prédios. Ele abalou a fé de muitas pessoas e tirou o sustento de muitas famílias.
Muitas casas e igrejas foram destruídas. E as que permaneceram de pé ficaram cheias de rachaduras, correndo risco de desabar a qualquer momento.”
O medo também afetou a igreja e mudou drasticamente a vida de algumas famílias.
“Vários membros da igreja pararam de frequentar os cultos porque tinham medo de entrar no prédio da igreja. Com a diminuição da frequência da igreja, a arrecadação e o salário dos pastores foram afetados.
Conhecemos dois ou três líderes cristãos que estavam enfrentando grandes dificuldades. Alguns disseram que não conseguiriam mais continuar o ministério naquela região e estavam se preparando para partir. Muitos pastores também estavam profundamente preocupados com suas igrejas.”
Uma nova esperança para recomeçar em Mianmar

Em meio a esse cenário, os treinamentos de empreendedorismo promovidos pelos parceiros da Portas Abertas mostraram-se especialmente importantes.
Eles inspiraram Abigail e muitas outras mulheres a seguirem o exemplo da mulher virtuosa descrita em Provérbios 31. Mais do que participar da capacitação, Abigail decidiu multiplicar esse conhecimento entre as mulheres de sua comunidade.
Sua história mostra que, mesmo nos momentos mais difíceis, as mulheres têm o poder de construir um futuro melhor para seus filhos e suas famílias.
“Eu já sabia fazer cestos e tinha outras habilidades, então participei do treinamento para descobrir como poderia aproveitar melhor esses conhecimentos, tanto para mim quanto para outras mulheres da igreja.”
Segundo Abigail, o treinamento foi extremamente valioso.
“Depois de participar do curso de empreendedorismo, comecei a enxergar novas possibilidades de negócio. Foi então que passei a produzir e vender xampus, sabonetes líquidos e detergentes.”
Seus pedidos de oração refletem a visão que Deus colocou em seu coração.
“Por favor, orem pelo ministério da nossa igreja. Orem especialmente pelos pequenos negócios administrados pelas mulheres da minha comunidade.
Peçam a Deus que esses empreendimentos prosperem e que essas mulheres se tornem um forte apoio para suas famílias em tempos de dificuldade.”
Após concluir a capacitação, ela decidiu compartilhar o conhecimento adquirido com outras mulheres da comunidade.
“Ensinei como aprender novas habilidades e transformá-las em fonte de renda. Mostrei que elas poderiam ganhar dinheiro oferecendo serviços de lavanderia ou passando roupas.
As que sabiam andar de bicicleta também poderiam usar essa habilidade para gerar renda. Além disso, destaquei a importância da gestão financeira dentro da família.”
Atualmente, três mulheres que receberam treinamento de Abigail produzem e vendem cestos artesanais.
“Depois de conquistarem independência financeira, elas ganharam mais confiança e passaram a contribuir para uma vida melhor para suas famílias. Elas me contaram que planejam vender dez cestos grandes por mês.
É incrível pensar que, mesmo trabalhando em dias alternados, podem alcançar uma renda mensal de pelo menos 200 mil kyats (cerca de 95 dólares). Esse valor pode ser equivalente, e às vezes até superior, ao salário de um trabalhador diarista, com a vantagem de trabalhar em casa apenas algumas horas por dia.
Fico muito feliz quando vejo outras pessoas crescendo. Os treinamentos de empreendedorismo ajudam as pessoas a enxergar oportunidades financeiras. Oro para que a sabedoria do Senhor conduza todas as participantes ao sucesso.”
Ajude os cristãos em Mianmar
Com sua doação, mais famílias podem ter acesso aos treinamentos e às necessidades básicas, fortalecendo-as para sobreviver e permanecer.
